domingo, 20 de setembro de 2015

Artigo:ALFABETIZAÇÃO: IR ALÉM DA DECIFRAÇÃO DO CÓDIGO

ANA MARIA PEREIRA HENDLER





ALFABETIZAÇÃO:
IR ALÉM DA DECIFRAÇÃO DO CÓDIGO








PORTO ALEGRE
2009
ANA MARIA PEREIRA HENDLER






ALFABETIZAÇÃO:
IR ALÉM DA DECIFRAÇÃO DO CÓDIGO
                        
                           
Artigo científico apresentado ao Curso de Especialização da Universidade de São Paulo como exigência para obtenção do título de especialista em alfabetização.
Orientador: Prof. Leociléa Aparecida Vieira




PORTO ALEGRE
2009





Resumo


Neste artigo me proponho a fazer uma reflexão sobre o contexto da alfabetização. Entendendo esta como um processo a ser construído no decorrer do ensino fundamental, no qual o indivíduo vai construindo seu conhecimento de leitura e escrita até ser considerado alfabetizado, ou melhor, que seja capaz de se utilizar, no seu dia-a-dia, ações de leitura e escrita de forma autônoma. Assim com o aprimoramento desse processo o sujeito será capaz de atuar no mundo em que vive tornando-se um sujeito do letrado. Esta é a questão na qual quero aprofundar minha pesquisa, como trabalhar para que esse indivíduo que se apropriou da decodificação do código se torne um leitor e escritor eficiente? Portanto quero encontrar pistas com vistas a novas perspectivas buscando melhoria deste contexto. Para realização deste trabalho realizei uma pesquisa qualitativa em uma escola estadual, na qual entrevistei professores e alunos visando uma percepção da realidade. A partir das questões apresentadas na pesquisa de campo busquei pressupostos teóricos baseados na teoria interacionista de aprendizagem. Como resultado deste estudo, encontrei uma realidade heterogenia, na qual a maioria das famílias não oferece um ambiente favorável à aprendizagem da leitura e escrita. Dentro desta realidade, constatamos que o despreparo docente o que acaba por agravar a situação trazendo mais dificuldades no desenvolvimento do processo. E como caminho para melhora do quadro de alfabetismo destaco principalmente trabalho com variações dialetais, fluência na leitura, escritas espontâneas e reescritas de textos produzidos pelos alunos.

Palavras-chave: alfabetização, decodificação, automatização, leitura eficiente, letramento.



Sumário













Ao começar minha pesquisa me identifiquei com a obra de Cagliare (2007) o qual questiona o que e como se ensina na escola nos dias de hoje. O autor afirma que o objetivo mais geral do ensino de português é mostrar o funcionamento da linguagem humana mostrando ao aluno os usos nas modalidades da língua oral e escrita, vividas no cotidiano. Outra autora em que fundamento meu trabalho é Kleiman (2004), a qual em contato com professores em cursos sobre ensino da leitura pode perceber que:
...As concepções do professor sobre essa atividade são apenas empíricas, e suas práticas de ensino estão baseadas em dicas e programas de outros professores, utilizados porque são os únicos enfoques disponíveis, não porque eles representam uma história de sucesso. (KLEIMAN, 2004, p. 7)

2.     Metodologia

 

 Desenvolvi este trabalho através de uma pesquisa qualitativa. Esta escolha deu-se devido à natureza do assunto escolhido, para o qual esta pesquisa torna-se mais adequada devido as seu caráter subjetivo. Segundo Minayo (1998) a abordagem qualitativa procura estudar o “o mundo dos significados das relações humanas” o qual é impossível ser mensurado através de dados estatísticos ou matemático, devido a complexidade das relações.

Realizei esta pesquisa de campo com os professores e alunos de uma escola estadual em Porto Alegre. Como instrumentos de pesquisa, utilizarei entrevista estruturada com os professores da escola (apêndice II) e com os alunos realizarei um questionário estruturado para averiguar sua situação de leitores (apêndice I).

A primeira etapa desta pesquisa efetuei com duzentas e quinze crianças e adolescentes da escola entre oito e dezesseis anos de idade que freqüentam a escola entre o segundo ano e o sétimo ano (sexta série). Para a realização desta etapa pedi a colaboração dos professores para que eles oportunizassem um espaço em sala de aula para os alunos poderem participar da pesquisa. Para a segunda etapa busquei a participação dos professores da mesma escola, os quais possuem de sete a vinte e um anos de experiência de docência.  Para a realização da pesquisa entreguei a entrevista a nove docentes e solicitei que os mesmos respondessem o questionário, dias depois me devolveram o questionário respondido.

Procurei fundamentar esta pesquisa na teoria interacionista de aprendizagem a qual concebe a fala organizadora do pensamento e constitutiva do sujeito, baseado no trabalho Berberian (2006). A autora também considera que o educador tem um lugar importante nessa constituição. Para buscar subsídios para esse trabalho realizei uma pesquisa entre alguns autores com o objetivo de aprofundar meu conhecimento sobre a alfabetização, principalmente no período após a aprendizagem da decifração do código. Visando a busca de conhecimento de como desenvolver as habilidades de leitura e escrita nos alunos.

 

3.     Linguagem oral e escrita

 

Ao analisar a questão sobre a diferença ente a linguagem oral e escrita (apêndice II) a maioria dos docentes apontou que as linguagens são diferentes devido à linguagem oral permitir um uso mais informal que a linguagem escrita exigir o seguimento de regras, que às vezes na linguagem oral podem ser omitidas.

Podemos perceber o equivoco ao estudar o texto em que Ângela Kleiman (2004) estabelece uma comparação entre linguagem oral e escrita. Mas antes deixa claro que é importante que esta comparação seja estabelecida entre textos do mesmo nível, ou seja, não devemos comparar um bate papo com os amigos com um texto acadêmico. Nesta comparação ela ressalta que na linguagem oral é mais fácil a atribuição de significados por falante e o ouvinte estarem presentes ressignificando o texto. Mas que na linguagem escrita podemos elaborar melhor nosso pensamento e reescrevê-lo.

Todos afirmaram realizarem atividades para o desenvolvimento oral dos discentes (apêndice II), como atividades trabalhadas listaram: realização de relatos vividos pelas crianças, contarem histórias, dramatizações, músicas, debates, para que os alunos possam expressar suas idéias sobre determinados assuntos e discussão sobre a pronúncia das palavras. Quanto ao intervalo de tempo que é feito houve muita variedade desde diariamente, quanto a ocasionalmente sempre que houver uma pronúncia equivocada de uma palavra em sala de aula. Outros relataram que realizavam esta atividade semanalmente ou a cada quinzena.

Berberian (2006), p. 41, afirma que “o diálogo é a atividade determinante no processo da aquisição da linguagem.” Compreendendo este, segundo a aurora, como um jogo de contar histórias, que podem se constituir em verdades, mentiras, acontecimentos fantasias, sentimentos, desejos... Ela nos diz que ao narrar histórias as crianças estão aprendendo a organizar linguisticamente o seu discurso.

Neste capítulo podemos perceber o quanto é importante que na escola proporcionemos um tempo para trabalhar o desenvolvimento oral das crianças, pois isso ajudará a criança quando solicitarmos que escreva uma história, pois ela já terá organizado seu discurso oral.

4.     Variação dialetal

 

Ao tratar sobre o trabalho realizado com variações dialetais (apêndice II), alguns dos professores relataram que nunca trabalharam e os que já trabalharam com estas variações o fizeram mais no sentido de mudanças dialetais de região para região do país.

Cagliare (2007) mostra em seu livro situações, igual à pesquisada, em que a escola não mostra a diferença que há entre a fala e a escrita. Ele ressalta que é fundamental que o professor mostre para o aluno a variação existente nas maneiras das pessoas falarem, pois cada um fala o dialeto usado em sua família. Quando se escreve, não pode haver essa variação, pois se ela fosse aceita a escrita seria muito confusa. Portanto professor deve ensinar que ao escrever devemos respeitar a forma convencional (modo ortográfico) para facilitar a compreensão de todos. Também afirma que:
Procedendo assim, mudaria o enfoque e o aluno saberia que, assim como o dialeto de prestigio, seu dialeto também tem uma gramática e, porque ele representa um instrumento de promoção social e intelectual. E, para estudá-lo, não precisaria nem desprezar nem abandonar seu dialeto. É muito mais verdadeiro e bonito ensinar português assim do que através das regras de uma gramática normativa, tal qual encontramos aos montes pelas livrarias e bancos de salas de aulas. (CAGLIARE, 2007, p.39)
Outra idéia ressaltada pelo autor é do quanto é difícil estudar português para um aluno que fala um dialeto estigmatizado pela sociedade, o autor compara que é tão difícil quanto aprender uma nova língua. Também adverte que nada mais falso que a escola considerar que “tudo comunica”, o papel da escola é fazer do ensino de português uma maneira de compreensão da própria sociedade e que a mesma espera linguisticamente de cada um.
Berberian (2006) também faz uma reflexão, na qual lembra que apesar de perceber a importância dos indivíduos da sociedade terem domínio da língua padrão, não se justifica que a mesma seja preconceituosa com os falantes de outra forma de manifestação da linguagem. Pois o que o ocorre socialmente é que aqueles que falam o dialeto padrão têm acesso para compreender e intervir na realidade e os falantes de outros dialetos ficam a margem da sociedade.
Cagliare (2007) nos mostra o quanto as crianças têm desenvolvida a capacidade de relação fala e escrita muito superior aos adultos. Com isso acabam pensando mais na maneira que falam do que na ortografia das palavras. Por essa razão a escola deve ser clara e “cientificamente correta”, pois ao estabelecer relação letra som, poderá causar grandes dificuldades para seus alunos, os quais começam a se julgar incapazes de escreverem, devido a sua escrita dialetal e as correções recebidas pela professora. O caso fica pior em alunos mais pobres, que confiam cegamente na escola, não tendo a esperteza de criticá-la e acabam se destruindo educacionalmente.
Berberian (2006) faz uma grande reflexão a respeito da diferenças que ocorrem entre a fala e a escrita, e mostra que a criança não faz essa distinção, concordando e citando Cagliare, mostrando que essa ação da criança é equivocadamente diagnosticada como sinal de distúrbio. E que para evitar estes equívocos de avaliação os professores devem reconhecer como desafios do processo de alfabetização em que passam as crianças o fato de que a correspondência entre os sons da fala e a escrita são muito complicados.
Como foi apresentado até aqui é fundamental que nas escolas possamos trabalhar analisando as variações dialetais com vistas a propiciar ao aluno o entendimento da diferença existente entre a maneira de falar usando o dialeto da comunidade local e o dialeto padrão. Também devemos levar os alunos a perceberem que ao escreverem devem se apropriar do dialeto padrão. Com essa atitude a escola estará conscientizando seus alunos e motivando-os para aprendizagem do dialeto padrão e criando possibilidades de inserção na sociedade.





5.     Leitura

 

Pude observar ao analisar os dados da pesquisa que apesar de apontarem a existência de pessoas com hábito de leitura, a maioria restringe-se a lerem de um a três tipos de textos, sendo casos de leituras eventuais para tarefas que vão ser realizadas. Menos da metade apresentam atividades de leituras mais intensas tendo quatro ou mais itens apresentados.

Continuando a análise dos dados do apêndice I, pude perceber que apesar da maioria dos estudantes declararem ter o hábito de ler em casa, um número significativo destes restringe esses atos à leitura de livros, e somente poucos tem acesso a uma maior variedade de textos, conseguindo levar os atos de leitura além das atividades escolares, levando o conhecimento da leitura e da escrita para seu cotidiano.
Cagliare (2007) nos diz que a escola deve ensinar seus alunos a lerem os diferentes materiais, uma vez que a mesma cobra esse desenvolvimento e compreensão de leitura em diversas áreas do conhecimento, mas se esquece que não se trata de um desenvolvimento maturacional e sim de aprendizagem efetiva de leitura. O mesmo explica que conforme o texto a ser lido exige atitudes e esforços diferenciados. O autor afirma que a escola coloca o conteúdo de leitura em segundo plano, até porque a mesma não sabe avaliar a leitura e sim a escrita.
 Ele considera importante que a escola proporcione desde as primeiras leituras em voz alta uma leitura expressiva. Esse recurso auxiliará a criança a compreensão do texto e ajudará a mesma a não ficar centrada na decifração do código. Mas para que essa atividade se efetive é necessário que a escola oportunize tempo para o estudo e treinamento para aluno se preparar para a leitura. Também devemos oferecer meios para que o aluno ao ler realize uma ação tão espontânea quanto à fala, pois corre-se o risco do mesmo adquirir péssimos hábitos de leitura como a soletração que será um impedimento na compreensão textual.
Kleiman (2004) concorda com o autor ao afirmar que a prática em sala de aula da leitura em voz alta inibe o leitor no uso de estratégias de adivinhação da palavra no processo da leitura. Esta prática somente deve acontecer após o aluno ler silenciosamente o texto. A autora ainda afirma que nesta prática o professor não percebe o quanto está pedindo para o aluno, pois para a leitura em voz alta ele precisará prestar atenção na pronúncia das palavras, sinais de pontuação, dialeto formal e tudo isso irá prejudicar sua compreensão, pois ao se esforçar em tantos detalhes perderá o sentido do texto.
Os professores na entrevista (apêndice II),  declaram-se em sua maioria como leitores de mais de cinco dos itens de tipos de leitura perguntados. Este dado da realidade pesquisado reforça o que nos diz Ângela em suas palavras: “para formar leitores temos que ter paixão pela leitura” (KLEIMAN, 2004, p. 15). Berberian (2006) concorda com esta afirmação uma vez que diz “que é impossível ensinar a importância, o sentido e o prazer da leitura e da escrita, se esta não é uma prática autentica que o adulto/mediador tem com essa modalidade de linguagem”. (Berberian 2006, p.45)

Ao descreverem o processo de leitura (apêndice II), os professores o fizeram descrevendo como a criança aprende a ler, citando algumas etapas deste processo, não relataram como ocorre o processo do ato de ler.

Mas um conhecimento que parece faltar aos docentes, encontramos no segundo capítulo do livro de Kleiman (2004) que trata como se dá o processo cognitivo da leitura e detalha como se dá esse processo desde a percepção do material escrito transcrevo aqui uma parte deste processo nas palavras da autora:
O processamento do objeto começa pelos olhos, que permitem a percepção do material escrito. Esse material passa então a uma memória de trabalho que organiza em unidades significativas. A memória de trabalho seria ajudada nesse processo por uma memória intermediária que tornaria acessíveis, como num estado de alerta, aqueles conhecimentos relevantes para a compreensão do texto em questão, dentre todo o conhecimento que estaria organizado a memória de longo prazo (Também chamada a nossa memória profunda). (KLEIMAN, P. 32)
Segundo a autora a memória de trabalho tem a capacidade limitada a mais ou menos sete unidades, ao mesmo tempo. Essas unidades para serem reconhecidas têm que ser significativas, podem ser letras ou sílaba para leitores iniciantes ou orações para leitores eficientes. Desta forma quanto maior for a unidade significativa mais rápido ocorrerá a leitura e o leitor terá condições de encontrar significado do texto lido. O leitor que lê silabicamente terá muitas dificuldades em interpretar ou saber o que leu ao término desta.

Como atividades de leituras realizadas em sala de aula mais apresentadas na pesquisa (apêndice II), foram apresentadas hora do conto, leitura de letras de músicas, adivinhas, histórias literárias, e de livros didáticos. Estas leituras são realizadas, de várias maneiras, como individuais, em grupos, em voz alta, silenciosa, às vezes destacando palavras do texto, ou usando fichas com palavras. Em sua maioria, conforme resultado da pesquisa, as atividades são realizadas diariamente.

Kleiman (2004), a partir de constatação em pesquisa, também faz reflexão quanto ao método das aulas de leitura, nos quais as professoras usam quase como um padrão: motivação do assunto, leitura silenciosa e em voz alta, leitura feita pelo professor, elaboração de perguntas e produção de texto. Lembra que em pesquisas realizadas recentemente constatam que é em conversas sobre aspectos relevantes, após a leitura do texto é que leitores inexperientes compreendem pontos que ficaram obscuros durante a leitura individual.
O que me chamou atenção é o fato de a escola não estar conseguindo fazer os seus alunos irem além das atividades por ela propostas, me parece que os alunos lêem o que e quando a escola os obriga a ler, desta forma não estamos formando leitores eficientes, que levem para seu dia-a-dia as aprendizagens conquistadas na escola. É fundamental que mudemos este quadro, acredito que se trabalharmos mais com fluência na leitura, diversidade de textos, fornecendo instrumentos para que nossos alunos consigam se apropriarem dos textos lidos, dessa maneira, conseguiremos um leitor mais ativo. Mas para isso é necessário dedicarmos mais tempo em sala de aula com atividades de leitura.







6.     Conhecimentos linguísticos

Sobre o conhecimento linguístico (apêndice II),  alguns professores não responderam, outros responderam que é importante conhecer a realidade do aluno, outros colocaram a leitura e interpretação de textos e compreensão da escrita dos alunos. Os docentes, em sua maioria, declararam ditar soletradamente as palavras ao realizarem um ditado.

Cagliare (2007) questiona o conhecimento dos professores, principalmente o conhecimento lingüístico que os professores possuem assim como a avaliação realizada na escola uma vez que não avalia o caminho percorrido pelo aluno e sim o ponto de chegada de todos. Ele afirma que: “O professor de português desde a alfabetização até o último ano escolar deve ter informações desse tipo do contrário não poderá realizar sua tarefa com competência e precisão. Quem lida com o ensino de línguas tem que saber lingüística”. (CAGLIARE, 2007, p. 39)
Outra questão levantada por Cagliare (2007) é ao respeito da pronuncia soletrada das professoras ao fazerem um ditado, pois ao ditar as palavras soletradas as professoras sem perceber mudam a pronúncia das palavras estabelecendo uma confusão nas cabeças das crianças. Essa ação é muito comum no período de alfabetização, justamente neste período no qual as crianças vão aprender a escrever observando através do ouvido os sons da língua. Portanto é indispensável o professor buscar as explicações corretas para a fala e a ortografia objetivando não confundir seus alunos.
Como mostrou a pesquisa o nosso conhecimento, nosso porque me incluo entre os docentes, sobre lingüística é pobre, alguns professores nem conseguiram responder, e o que fazer? Muitas vezes chega-se a faculdade sem este conhecimento, e ao sair pouco se sabe. Como professores, precisamos nos conscientizar desta lacuna em nossa formação e buscar conhecimento, para que possamos melhorar nosso fazer pedagógico.


7.     Compreensão de textos

 

Ao responderem sobre a compreensão de textos (apêndice I), embora os alunos em sua maioria se declararem compreender claramente os mesmos, quase todos apontaram algumas dificuldades que encontram diante de alguns textos, como: extensão, existência de vocabulário difícil, compreensão de alguns gêneros de textos entre eles: literários, poesias e jornalísticos. Também apontaram textos de conteúdos como história e ciências. Ao tratarem dos tipos de textos trabalhados, os professores citaram: didáticos, gibis, recortes de jornal, letras de músicas, poesias, parlendas, fábulas, contos de fadas, receitas, trava-línguas, informativos, adivinhas e outros.

Kleiman (2004) faz uma análise de textos usados em livros didáticos mostrando o quanto podem ser aumentada a complexidade de textos que usam estruturas sintáticas complexas. Ela também adverte que para se compreender um texto escrito é necessário que durante a leitura identifiquemos pronomes e nomes que estão se referindo a elementos já citados no texto em que o autor não quer repetir.
Cagliare (2007) questiona a maneira de a escola realizar a interpretação de textos ao propor após cada leitura um questionário, com perguntas óbvias. Kleimam (2004) faz a mesma crítica e acrescenta que nas interpretações as escolas pedem a opinião do leitor sem solicitar antes a opinião do autor, assim o aluno consegue realizara questão sem maiores aprofundamentos na leitura e compreensão do texto. Como sugestão para interpretação de textos o autor propõe que se peça aos alunos que escrevam o texto com suas palavras, ou que se faça uma discussão sobre o assunto do texto após a leitura.
Kleiman, (2004) sugere o trabalho com itens do texto que o professor perceba, após boa leitura e análise do mesmo, quais serão pontos de dificuldades de compreensão para os alunos e também o trabalho com aumento do vocabulário das crianças. Esse trabalho de aumento do vocabulário, deverá ser feito de duas formas buscando através do dicionário o significado da palavra, quando esse for essencial pra compreensão do texto. Ou através de “estratégias de inferência lexical”, quando o significado aproximado da palavra é suficiente para a compreensão do texto, esse trabalho é feito oportunizando ações que levem a criança conseguir perceber através do contexto das palavras seu significado, assim, a partir destas ações vá refinando seu vocabulário. Kleiman (2004) explica que para ensinar um aluno a analisar o contexto, buscando o significado de uma palavra desconhecida, implica em ensinar o mesmo a fazer uma leitura não linear, pois o aluno deve continuar a leitura para buscar o significado da palavra, às vezes até precisa a releitura do texto para melhor entendimento.
A autora aprofunda seu trabalho, mostrando a importância de trabalhar habilidades de perceber a estrutura do texto, isto é, seu esqueleto, e a perceber intenção do autor, é mais íntimo precisa uma maior interação para atribuir uma intenção ao autor do texto. Se ao aluno conseguir perceber a estrutura linguística que dá sustentação as intenções do autor ele poderá ter uma leitura mais eficiente e crítica dos textos lidos. Ela nos mostra que para o aluno conseguir identificar a estrutura do texto ele precisará compreender o texto observando dois aspectos, a construção do significado, a qual diz respeito ao assunto do texto e a construção da armação do texto a qual está relacionada ao gênero do texto.  Como esse trabalho exige do leitor grande abstração, pois a criança precisa relacionar o todo do texto a partir das partes, a autora sugere que trabalhemos com as crianças textos simples.
Para trabalharmos a compreensão de textos precisamos, desenvolver a fluência na leitura. Mas para este início do trabalho, precisamos oferecer vários tipos de textos e ajudarmos os alunos a analisar tanto para que servem quanto  sua estrutura, para que o aluno consiga fazer predições sobre cada uma deles. Também é fundamental que propiciemos através de diferentes leituras o aumento de vocabulário, não de forma fragmentada, mas com atividades que levem o aluno a incorporar novos vocábulos levando-o a um enriquecimento de novas palavras e tornando-o um leitor mais eficiente.




8.     Escritas espontâneas

 

Quanto à escrita espontânea todos os docentes relataram que propõem aos alunos essa atividade desde diariamente, até ocasionalmente, quando vai propor um assunto diferente. A tarefa é proposta a partir de passeios realizados, recortes de jornal, dinâmicas realizadas, desenhos ou assunto do interesse dos alunos. Ao falarem sobre reescrita de textos alguns nunca propuseram, outros relataram que propunham reescritas de outros finais de textos apresentados. Na pesquisa pude perceber a utilização da escrita no dia a dia das famílias, na qual quatorze por cento não costumam escrever, dos que responderam que tem o hábito de escrever a maioria costuma escrever um dos itens, geralmente listas de compras ou recados.

Berberian (2006) considera que escritas espontâneas são momentos privilegiados de manipulação da linguagem, e que neles podemos analisar a relação existente entre o sujeito e a linguagem. Ela sugere que as produções sejam feitas a partir de discussões e pesquisas para responderem as questões relativas ao projeto estudado.
Cagliare (2007) afirma que o professor deve olhar o texto produzido pelo aluno em si, devendo usar o texto como fonte de informação para verificar o desenvolvimento dos seus alunos e as dificuldades apresentadas. A partir daí o professor fará um planejamento de atividades futuras buscando melhorar o desempenho de seus alunos. O autor sugere que o professor deve propor as crianças várias reescritas para seu texto sempre oportunizando levantamento de questões que levem a uma melhora em seu texto. Em seu livro ele mostra uma série de produções infantis, e após faz uma reflexão a cerca dos erros cometidos nos textos mostrando o quanto estes estão vinculados com a maneira das crianças falarem e, ressalta que em suas produções os pequenos mais acertam do que erram.

Temos que ter claro que apesar de ser importante trabalhar a escrita espontânea da criança, devemos ter claro que pouco adianta se esta servir apenas para corrigirmos e darmos uma nota avaliando o desempenho de nosso aluno. É preciso que nos conscientizemos que esta escrita deve servir de material para trabalharmos a reescrita. Assim dentro do contexto do texto escrito poderemos analisar e refletir todos os erros encontrados tanto os que envolvem a ortografia, ou a semântica ou a sintaxe e reconstruir o texto com nossos alunos.

9.     Considerações finais

 

 O objetivo principal neste trabalho foi aprofundar o conhecimento sobre o desenvolvimento das capacidades de leitura e escrita em alunos que já dominam o código, procurando caminhos que apontem para realização de atividades de leitura e escrita com vistas a tornar o indivíduo letrado. Pudemos observar na realização deste, que na realidade das crianças há poucos exemplos de atos de leitura e escrita, o que acaba dificultando a inserção dos alunos na sociedade, e por isso, exigindo mais do professor. E corroborando com a manutenção desta realidade encontramos o despreparo dos docentes principalmente quanto aos conhecimentos linguísticos.

Com esse estudo podemos perceber a importância de propormos atividades para o desenvolvimento da linguagem oral e escrita, levando o aluno a perceber as diferenças entre as mesmas, e seu devido emprego de acordo com as exigências do contexto. Também vimos que é fundamental que o professor trabalhe as diferenças dialetais, tendo o cuidado de não desvalorizar o dialeto falado pelos alunos, mas com vistas e fazê-lo perceber a importância da utilização do dialeto padrão principalmente na escrita, uma vez que a sociedade faz a exigência deste conhecimento para inserção dos indivíduos.

Também mostrou o quanto é imprescindível trabalharmos mais com a leitura, em sala de aula, fornecendo meios para que consigam uma leitura fluente, pois desta forma estaremos oferecendo ferramentas uma maior compreensão do que lêem. Além disto, faz-se necessário que oportunizemos uma enorme variação de tipos e gêneros de textos, pois a leitura eficiente exigem que além do conhecimentos da decifração do código é preciso que o aluno conheça a estrutura do texto, o que o ajudará a fazer predições. Outro recurso pouco usado, mas que ajudará nossos alunos é a reescrita de textos, na qual os alunos depois de escreverem um texto espontâneo o reescrevem a partir de questionamentos feitos pelo docente.

Concluindo, com vistas a mudar a sociedade, temos que buscar estratégias e conhecimentos para conseguirmos fazer de nossos alunos cidadãos com condições de atuar e transformar o mundo em que vivem. Não podemos ficar pondo a culpa na realidade que encontramos, precisamos buscar conhecimentos para modificá-la.

10.                       Referências

 

 

BERBERIAN, Ana Paula. Psicogênese da linguagem oral e escrita. Curitiba: IESD, 2006, p. 116.
CACLIARI, Luiz Carlos. Alfabetização & lingüística. São Paulo: Scipione, 2007, p. 191.
KLEIMAN, Ângela. Oficina de Leitura: teoria e prática; 10ª edição, campina São Paulo: Pontes, 2004.
MINAYO, Maria Cecília de Souza (Org.). Pesquisa Social: teoria, método e Criatividade. Rio de Janeiro: Vozes, 1998, p. 80.















Questionários realizados com os alunos
1.      Idade: ­­­­___________                                     
2.      Série: __________________
3.      Em sua casa alguma pessoa tem o hábito de ler?   (   )sim.    (   )não. 
Se respondeu sim, o que esta (s) pessoa (s) costuma ler?(  


)Revistas.
(   )Jornais.
(   )livros.
(   )cartas.
(   )bilhetes.
(   )receitas.
(   )materiais na internet.
(   )outros __________________.


4.      Em sua casa os adultos têm o costume de escrever?  (   )sim.    (   )não .
Se respondeu sim, o que esta (s) pessoa (s) costuma escrever?


             (   )Lista de compras.
(   )Cartas ou cartões.
(   )Histórias.
(   )Recados.
(   )Poesias.
(   )Na internet em chats,e-mails, ...
(   )outros ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­___________________.


5.      Você tem o hábito de ler em casa? (   )sim.    (   )não. 
Se respondeu sim, o que você costuma ler?


(   )Revistas.
(   )Jornais.
(   )livros.
(   )cartas.
(   )bilhetes.
(   )receitas.
(   )materiais na internet.
(   )outros __________________.


6.      Quando você lê um texto, você geralmente:
(   )Consegue entender claramente o texto.
(   )Tem alguma dificuldade em compreender o texto.
(   )Tem muita dificuldade em entender os textos.
7.      Quais os tipos de textos que você considera mais difícil de compreender?_________________________________________________________________________________________________________________



Questionário realizado com os professores com professores
1.             Há quanto tempo trabalha com aluno? ­­­­­­­­­­­­­­_____________________
2.             Você costuma fazer leituras? (   )sim.    (   )não .
3.             Se respondeu sim, o que esta (s) pessoa (s) costuma ler?


(   )Revistas.
(   )Jornais.
(   )Livros.
(   )Cartas.
(   )Bilhetes.
(   )Receitas.
(   )Materiais na internet.
(   )Outros ____________.



4.             Ao trabalhar com leitura em sala de aula, que atividades costumas fazer?
5.             Com que intervalo de tempo trabalhas a leitura?
6.             Em sua opinião existem diferenças entre linguagem oral e escrita?
7.             Como se dá o processo de leitura?
8.                  O que você considera importante que um professor saiba do conhecimento linguístico?
9.             Você já trabalhou mostrando as variações dialetais com seus alunos? Como foi?
10.         Ao realizar um ditado você dita as palavras soletradamente?
 (   )sim.    (   )não .

11.         Você propõe aos seus alunos escritas espontâneas? Como é feita esta produção?
12.         Com que intervalo de tempo?
13.         Você já trabalhou com reescrita dos textos? Como é feito este trabalho?
14.         Quais os tipos de textos que você costuma trabalhar com seus alunos?
15.         Você trabalha com o desenvolvimento da linguagem oral? De que forma?
16.         Com que intervalo de tempo?


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